Mapeamento inédito mostra otimismo elevado convive com pressões reais que afetam rentabilidade de quem já está na rede e de candidatos.
Noventa e dois por cento dos franqueadores pretendem abrir unidades no próximo ano e 85% esperam melhora de desempenho1. Os números são do Mapeamento do Franchising Brasileiro, primeira edição de um estudo realizado pelo Ipespe para a ABF e o Sebrae, divulgado durante o ABFCon 2026, em Una (BA). O apetite pela expansão é real, mas convive com uma lista de pressões que afetam diretamente a rentabilidade de quem já está na rede e de quem ainda avalia entrar.
A carga tributária lidera as preocupações dos franqueadores para os próximos doze meses, citada por 55% do total e por 61% das redes de médio e grande porte1. Mão de obra vem na sequência, com 50%, e juros e acesso ao crédito com 34%. Na prática, 42% das redes relatam dificuldade para obter crédito e 55% para contratar e reter pessoal1. Para o candidato a franqueado, o que comprime a franqueadora tende a chegar ao franqueado, seja na forma de repasse de custos operacionais, seja na demora para receber suporte de expansão.
A Reforma Tributária adiciona uma camada de complexidade. Segundo Tom Moreira Leite, presidente da ABF, os franqueadores precisam avaliar o regime tributário de seus fornecedores para identificar quais geram crédito e orientar franqueados sobre o modelo mais eficiente1. Redes de segmentos diferentes serão impactadas de formas distintas, dependendo da cadeia de fornecimento. Antes de fechar negócio, vale perguntar à franqueadora como ela está preparando a rede para esse ajuste e se há previsão de alteração nas taxas praticadas.
O desempenho recente sustenta o otimismo declarado. Cinquenta e nove por cento dos franqueadores afirmam que o faturamento de suas redes cresceu em 2026 na comparação com 2025, e 24% relatam estabilidade1. No primeiro semestre de 2026, o franchising brasileiro faturou R$ 149 bilhões, crescimento de 9,7% sobre o mesmo período de 2025, segundo dados da ABF1. Números de setor sinalizam um ambiente favorável, mas não garantem resultado por unidade, que depende de praça, operação e modelo de negócio específico.
A estrutura do setor é predominantemente de pequenos negócios. MEs e EPPs totalizam 88% das operações franqueadas, sendo 64% microempresas e 24% de pequeno porte1. Alimentação responde por 29% das operações, seguida por Saúde, Beleza e Bem-Estar (22%), Serviços e Outros Negócios (13%) e Moda (11%)1. Do lado das franqueadoras, 61% das redes têm até 30 operações e apenas 1% ultrapassa mil unidades1. Redes menores podem oferecer atenção mais próxima, mas tendem a ter menor capacidade de absorver choques de custo, o que reforça a importância de avaliar a saúde financeira da franqueadora antes de qualquer compromisso.
Um dado merece atenção especial de quem está prospectando: 88% das redes pesquisadas já têm franqueados operando mais de uma unidade da mesma marca, e, entre essas redes, 40% têm de 5% a 20% de participação de multifranqueados1. O presidente da ABF atribui parte da boa performance do setor exatamente a esse perfil de operador mais experiente. Para quem está entrando agora, isso pode significar concorrência interna por pontos de expansão futura, uma variável que raramente aparece nas simulações iniciais e vale ser explorada diretamente com a rede.
O mapeamento não traz dados sobre investimento inicial, royalties, prazo de contrato ou retorno médio por unidade. Essas informações não saem de pesquisa de mercado, mas da Circular de Oferta de Franquia, que a franqueadora é obrigada a entregar antes da assinatura. A lição central da pesquisa é que expansão e pressão de custos coexistem, e é justamente por isso que a rentabilidade real por unidade precisa ser verificada com rigor antes de qualquer decisão.