CEO do Assaí identifica delta de 13 p.p. entre segmentos em quarto trimestre, atribuindo pressão na baixa renda a juros altos e endividamento.
Uma Selic em queda alivia o custo de financiar a entrada numa franquia. Mas Belmiro Gomes, CEO do Assaí, entregou um diagnóstico que complica a conta para quem mira o consumidor de menor renda: anos de juros elevados e o avanço das apostas esportivas estão corroendo o orçamento das famílias brasileiras de baixa renda, mesmo com o desemprego em patamares baixos. "Mesmo com uma taxa de desemprego baixa, não era para nós estarmos no nível de endividamento da população", afirmou Gomes em entrevista ao programa De Frente com CEO, da Exame PME1.
Os números que Gomes trouxe tornam a tensão concreta. No quarto trimestre de 2025, formatos de varejo alimentar voltados à população de maior renda cresceram nominalmente 4%, enquanto os expostos à baixa renda recuaram 9%, diferença de 13 pontos percentuais1. "Esse delta a gente não via há muitos anos", disse o CEO. "Óbvio que quando você tem o ciclo de juro elevado, você vai ter a classe mais baixa sofrendo mais, mas nessa medida ele tem sido inédito." Para quem avalia uma franquia de alimentação popular ou de serviços de ticket médio-baixo, esse gap entre segmentos vem de quem recebe aproximadamente 40 milhões de pessoas por mês em suas lojas1, cobrindo diferentes classes sociais.
O alívio na Selic pode ser menor do que parece. Gomes acrescenta as apostas esportivas ao diagnóstico. Ele apoia a leitura em estudos e reportagens externas, e deixa claro que o Assaí não produziu levantamento próprio para mensurar o quanto das apostas responde pelo endividamento. "Na medida que o juro aperta, de um lado, a pessoa tem uma expectativa com a aposta, do outro. Isso tem levado a um aumento do endividamento", afirmou1. A correlação que ele aponta é avaliação do executivo, não dado auditado pela companhia.
O efeito sobre pequenos negócios aparece em outro número trazido pelo CEO: cerca de 40% do faturamento do Assaí vem de pessoas jurídicas, grupo que inclui mercadinhos, padarias, restaurantes, pizzarias, escolas e hotéis1. Com o crédito caro, parte desses empreendedores passou a evitar a formação de estoques, aumentando a frequência de visitas às lojas para comprar só o necessário. O cliente do setor de serviços chega a visitar as unidades 172 vezes por ano, em média1. A informação ausente para quem avalia entrar no segmento é o comportamento de demanda por praça e formato específico de franquia, recorte que a franqueadora, não o dado agregado de uma rede de atacarejo, precisa fornecer.
Gomes também citou que os juros elevados frearam investimentos do próprio Assaí, sem detalhar valores ou projetos na parte da entrevista reproduzida. A tensão que ele deixou aberta vale para os dois lados do balcão: o consumidor que compra menos e o empreendedor que investe menos, ambos pressionados pela mesma variável que começou, marginalmente, a ceder.