Décio Pecin assume presidência da entidade em janeiro com programa que prioriza interiorização, mas trava-se em incerteza tributária que afeta projeção de rentabilidade de franqueados.
O setor que fatura mais de R$ 315 bilhões ao ano e emprega cerca de 1,8 milhão de pessoas1 vai ter novo comando na principal entidade que o representa. Décio Pecin, CEO da rede CNA, assume a presidência da Associação Brasileira de Franchising (ABF) a partir de janeiro de 2027, sucedendo Tom Moreira Leite após quatro anos no cargo1. O anúncio foi feito durante o ABFCon 2026, em Una (BA).
A nova diretoria é composta por 20 líderes1 e inclui o CEO da Morana, Jae Ho Lee, como vice-presidente, além de representantes de redes como Bob's, O Boticário, Levi's e SMZTO. Para um candidato a franqueado que avalia marcas com forte presença no varejo ou no ensino, vale observar que os CEOs das franqueadoras à mesa da ABF podem influenciar a pauta regulatória que incide sobre toda a cadeia, inclusive sobre os encargos que ele próprio vai pagar.
A gestão organizou quatro eixos de trabalho, crescimento e desenvolvimento do setor, defesa institucional e ambiente de negócios, valorização do associado e formação de pessoas1. Três novas diretorias adjuntas foram criadas, voltadas a crescimento e interiorização, inteligência de relacionamento e relações setoriais, com Bruno Semenzatto (SMZTO), Daniel Guedes (Grupo Rão e Casa do Construtor) e Sidnei Amendoeira (MMA Advogados) à frente, respectivamente1.
A interiorização do franchising aparece como prioridade declarada de Pecin, ao lado de novos modelos operacionais e inovação tecnológica com foco em inteligência artificial1. Para quem avalia abrir uma unidade fora dos grandes centros, essa ênfase sinaliza uma possibilidade: mais redes podem vir a desenvolver formatos enxutos ou adaptados a praças menores. A viabilidade de cada proposta, porém, depende de dados que a franqueadora precisa apresentar.
O ponto que une liderança e operação de forma mais imediata é a Reforma Tributária. Pesquisa realizada pela ABF em parceria com o Sebrae mostra que 55% dos franqueadores apontam a carga tributária como o principal desafio para os próximos 12 meses, à frente de mão de obra, juros, acesso a crédito e inflação2. O número situa o tema bem acima de outros fatores habitualmente citados e ajuda a entender por que a defesa institucional entrou explicitamente no programa da nova gestão.
No mesmo evento, Artur Grynbaum, vice-presidente do Conselho do Grupo Boticário, rede com mais de 4 mil pontos de venda e GMV de R$ 38,1 bilhões2, defendeu adiar a implementação da reforma para 2028. A justificativa apresentada por ele é a falta de clareza sobre o cálculo de créditos e débitos tributários, o que impede que as empresas estimem o impacto nos custos e definam a precificação dos produtos2. Segundo Grynbaum, um prazo maior reduziria o risco de erros e disputas de interpretação das regras2.
Para o candidato a franqueado, a incerteza tributária não é apenas uma questão macroeconômica, pois pode afetar diretamente a projeção de rentabilidade apresentada pela rede. A COF obriga a franqueadora a divulgar sua situação financeira e as condições do negócio, mas o impacto da nova tributação sobre o fluxo de caixa da unidade, e sobre eventuais reajustes de royalties ou preços de produtos fornecidos pela rede, são perguntas que merecem resposta direta na negociação do contrato, antes da assinatura. Quem acompanha a ABF com nova liderança sabe que o setor reconhece o problema; o que ainda está em aberto é como cada rede vai repassar ou absorver o custo.