A interrupção dos cortes de juros eleva o custo do capital de giro e pode adiar investimentos de quem opera ou quer abrir uma franquia.
O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 13,75% ao ano na penúltima reunião de 20261, encerrando uma sequência de reduções que vinha aliviando o custo do crédito para pequenos e médios negócios. A pausa foi motivada por elevação das expectativas de inflação, pressões cambiais e fiscais e pelo ambiente externo adverso, incluindo conflitos no Oriente Médio e política monetária mais restritiva nas economias avançadas, conforme ata do próprio Banco Central1.
Para quem avalia entrar em uma rede, o dado mais relevante está além da taxa headline. Alex Nery, professor da FIA Business School, lembra que a Selic representa apenas o piso do crédito, e que pequenas empresas costumam pagar taxas bem superiores em linhas de curto prazo, como antecipação de recebíveis de cartão e cheque especial empresarial1. O custo real do capital de giro de um franqueado tende, portanto, a ficar consideravelmente acima do número anunciado pelo Copom.
Os efeitos aparecem em três frentes, na descrição de Nery1. A primeira é a pressão sobre o capital de giro, quando clientes demoram a pagar e estoques giram mais devagar. A segunda é a compressão das margens operacionais. A terceira é o adiamento de investimentos. Para uma franquia em fase de maturação, essas três pressões podem se sobrepor justamente no período em que a unidade mais precisa de fôlego financeiro.
O cenário pode se prolongar. Renan Pieri, economista da EAESP/FGV, avalia que a pausa parece mais uma resposta ao choque do que uma escolha deliberada do Banco Central, e que, se as expectativas de inflação continuarem piorando, ela pode se converter em um período longo de juros restritivos1. O Boletim Focus de 3 de novembro já projetava a Selic em 12,50% ao fim de 20271, acima das estimativas anteriores, sinalizando que o alívio pode demorar mais do que o mercado esperava.
Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da ESPM, acrescenta que a trajetória dos juros depende também da política fiscal. Uma condução que sustente a trajetória da dívida reduziria o esforço da política monetária e criaria condições mais favoráveis para uma queda sustentável dos juros1. Enquanto essa combinação não se confirma, o candidato a franqueado opera em um ambiente de crédito caro e margens pressionadas.
A fonte não traz dados de royalties, taxas de publicidade ou necessidade de capital de giro específicos de nenhuma rede. Antes de assinar qualquer contrato, vale perguntar à franqueadora qual o volume de capital de giro exigido nos primeiros meses de operação, como ele foi dimensionado e se a projeção de retorno já considera um cenário de juros elevados por um período mais longo do que o inicialmente previsto. Crédito caro não inviabiliza o modelo de franquia, mas torna a qualidade do suporte financeiro da rede um critério tão importante quanto a força da marca.