Ex-fundador da Ricardo Eletro lidera Grupo R1, que afirma crescimento entre 80% e 100% anuais, mas não divulga faturamento nem submete números a auditoria.
Uma rede que chegou a 1.100 lojas, 45 mil funcionários e faturamento anual de R$ 12 bilhões1 não tentou Ricardo Nunes de volta ao varejo. Aos 57 anos, o fundador da Ricardo Eletro afirma que "varejo nunca mais"1, apontando a combinação de juros elevados e a concorrência dos marketplaces como fatores que tornaram mais difícil sustentar grandes operações de lojas físicas no Brasil.
Esse diagnóstico tende a pesar na avaliação de qualquer candidato que considere uma rede de varejo físico. Quando um operador com décadas de experiência e escala nacional abandona o setor com argumentos estruturais, a pergunta natural para a franqueadora é como ela responde a esses mesmos vetores de pressão.
Depois de vender sua participação na antiga varejista em 20181, Nunes migrou para educação empresarial. Desde 2022, comanda o Grupo R1, que oferece treinamentos, mentorias e consultorias para donos de negócios. A operação conta com 130 funcionários e reúne, segundo o próprio Nunes, 560 empresas ativas em seu principal produto, o Clube R11.
Os percentuais de expansão são os únicos indicadores financeiros que a empresa divulga. A rede afirma crescimento anual entre 80% e 100% desde 2021, com projeção superior a 120% em 2027 na comparação com a receita estimada para 20261. O faturamento bruto, porém, segue sem divulgação; questionado durante dias pela reportagem, Nunes argumentou que a companhia ainda é pequena, não possui números auditados e está começando a estruturar esse processo1.
Taxa de crescimento percentual sem base de faturamento conhecida pode refletir tanto expansão robusta quanto uma base ainda muito pequena. A ausência de auditoria, admitida pelo próprio fundador, é um dado que qualquer avaliador de negócios precisa considerar ao interpretar os números divulgados.
A trajetória de Nunes começou aos 18 anos, em 1989, com uma loja de 20 metros quadrados em Divinópolis, Minas Gerais1. Antes disso, vendia mexericas na porta de uma faculdade e percorria de ônibus a Rua 25 de Março, em São Paulo, para comprar brinquedos e revendê-los de porta em porta por cerca de cinco anos1. A escala veio com importação da China e publicidade intensa, numa estratégia que chegou a colocar sanduicheiras importadas a R$ 39,90 enquanto concorrentes cobravam R$ 79 por produtos similares1.
Em 2010, a Ricardo Eletro se uniu à Insinuante, rede baiana, criando a holding Máquina de Vendas1. O movimento marcou o ápice de uma expansão que, anos depois, se tornaria insustentável. O que Nunes carrega daquele ciclo e agora comercializa como produto é a convicção de que gestão, não apenas vendas, é o que sustenta uma operação de grande porte.
O Grupo R1 não é apresentado na fonte como franquia, e os dados sobre modelo de expansão, investimento de entrada e condições comerciais não constam na reportagem. Quem se interessar pelo Clube R1 precisa perguntar diretamente à empresa qual o custo de participação, que indicadores de resultado as empresas-membros apresentam e quando os números passarão a ter auditoria independente. A trajetória de quem construiu e desfez uma rede bilionária pode render aprendizados valiosos, desde que o candidato saiba separar a narrativa inspiradora dos dados que ainda faltam.