Franqueados de setores que operam diariamente precisam refazer contas de custo de pessoal; contratação ou automatização antes da primeira mudança, em 60 dias.
O Senado aprovou, por 75 votos a 1, a PEC que extingue a escala 6x1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas1. A mudança ocorre em duas etapas. Sessenta dias após a promulgação, a jornada passa para 42 horas e garante dois dias de repouso semanal remunerado. Depois de 14 meses, chega a 40 horas definitivas1. Para redes que dependem de presença física contínua, o impacto tende a aparecer antes mesmo de a segunda etapa entrar em vigor.
A aritmética de quem opera todos os dias é direta. Uma empresa com 10 funcionários passa de 440 para 400 horas semanais disponíveis; manter o mesmo volume operacional exigiria ampliar o quadro para 11 funcionários, elevação de aproximadamente 10% nos custos de mão de obra, segundo simulação de Rodrigo Paiva, professor da Fipecafi1. Em unidades franqueadas com estruturas de royalty calculadas sobre faturamento bruto, esse crescimento de custo pode comprimir margem sem contrapartida imediata de receita. Perguntar à franqueadora como o modelo de precificação da rede absorve variações de folha é um passo que a fonte não contempla, mas que tende a ser decisivo para quem está em negociação.
Os segmentos mais expostos são aqueles que operam de forma contínua e intensiva em mão de obra: restaurantes, hotéis, farmácias, academias e hospitais, de acordo com Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School1. É o perfil dominante de muitas redes de franquia. A Associação Paulista de Supermercados (Apas) vai além e avisa que a reorganização de escalas pode pressionar os preços ao consumidor, citando 35 mil vagas abertas no setor supermercadista paulista que não conseguem ser preenchidas2. A dificuldade de repor quadros pode ser ainda maior em praças menores, cenário que a fonte não quantifica.
Para operações de menor porte, a recomendação de especialistas ouvidos por PEGN é automatizar antes de contratar1. Os processos indicados como mais acessíveis incluem emissão de notas fiscais, controle de estoque, atendimento inicial por chatbot e integração entre sistemas. A lógica é liberar a equipe atual para funções que gerem retorno mais rápido. Franqueados, porém, dependem dos sistemas homologados pela rede, e vale perguntar quais ferramentas já estão disponíveis no modelo e qual o custo de adoção.
Quando a contratação for inevitável, a legislação trabalhista permite admitir o novo colaborador em regime de tempo parcial, com jornada de até 36 horas semanais e salário proporcional ao salário-hora dos demais que exercem a mesma função há menos de quatro anos no cargo, segundo o advogado trabalhista Pedro Azevedo, do Cascione Advogados1. Vale validar essa estrutura com o departamento jurídico da rede, já que modelos de contrato e beneficiários variam conforme o acordo coletivo. O custo real inclui FGTS, INSS, 13º salário e demais encargos, o que torna indispensável calcular o total antes de qualquer decisão de headcount. A advogada Claudia Securato, sócia do Securato Advogadas, recomenda usar o período de transição para revisar contratos e antecipar passivos trabalhistas, sobretudo em operações com escalas diferenciadas1.
O Sebrae adota leitura distinta e afirma que a medida abre oportunidades para pequenos negócios, especialmente nos segmentos de lazer, turismo, bares e restaurantes, que tendem a capturar demanda do tempo livre gerado aos trabalhadores3. A entidade aponta que 51% dos donos de micro e pequenas empresas e MEIs avaliam que a mudança não terá impacto sobre seus negócios, segundo a Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios do Sebrae3. Os dois cenários podem coexistir: o mesmo franqueado de restaurante pode sofrer pressão de custo na operação e capturar mais clientes pela demanda. A receita extra não é automática nem suficiente para cobrir a elevação de folha em toda rede, e depende da praça e do mix operacional.
A questão que o candidato a franqueado carrega para a mesa de negociação não é se a mudança chega, mas quanto ela pesará na operação de cada unidade, e se o suporte da rede inclui ferramentas de replanejamento de escala e de automação compatíveis com o modelo já contratado.