O mecanismo da reforma tributária segrega tributos no pagamento, antes do varejista receber o valor líquido da venda, reduzindo o capital de giro disponível.
O varejo concentra a maior quantidade de empresas analisadas por fundos de recebíveis do país, e o split payment tende a aprofundar a pressão sobre o caixa. Um levantamento da Assertiva identificou 640 varejistas entre os CNPJs analisados por FIDCs de janeiro a setembro deste ano, a maior quantidade dentre as atividades econômicas avaliadas individualmente, à frente do comércio atacadista, com 347 empresas, e de confecção e vestuário, com 3281.
A pressão sobre o caixa do varejista existe antes mesmo da reforma tributária. Redes precisam comprar estoque, pagar fornecedores e sustentar despesas enquanto parte da receita ainda está para entrar. Com o split payment, esse intervalo tende a ficar mais apertado. O mecanismo, previsto para implantação gradual a partir de 2027, fará com que a fatia correspondente ao IBS e à CBS seja segregada diretamente para o Fisco no momento da liquidação financeira, e não após o comerciante receber o valor integral1. A empresa receberá apenas o valor já deduzido dos tributos.
Para candidatos a franqueados que avaliam redes de varejo, vale questionar como a franqueadora modela o capital de giro das unidades dentro desse novo cenário e se o plano de negócios já incorpora o efeito do split payment. A fonte não traz esses dados, o que torna a pergunta direta à rede ainda mais necessária.
A Receita Federal anunciou que os testes de integração entre prestadores de serviços de pagamento e a plataforma do split payment começarão em outubro. O caminho até 2027 é gradual, mas a adaptação operacional tende a começar antes da data-limite.
No total, 36 FIDCs realizaram 4.045 consultas sobre 3.543 empresas distintas no período analisado1. Uma consulta indica análise, não contratação de crédito, mas o volume revela que o setor já ocupa posição central no radar dos fundos. O perfil das empresas observadas mostra que o acesso a crédito estruturado não se restringe a negócios em dificuldade: 68,9% dos CNPJs analisados não apresentavam sinais de restrição, e 60,9% tinham mais de dez anos de existência1. A média apontava 17,6 anos de atividade, faturamento presumido de R$ 44,3 milhões e 189 funcionários1.
A própria legislação já esclarece um ponto relevante para quem pensa em antecipar recebíveis como saída: a antecipação não elimina a obrigação de segregação dos tributos prevista para a operação1. Isso significa que os fundos precisarão rever como calculam o fluxo futuro disponível como lastro, já que parte desse fluxo vai direto ao Fisco antes de chegar ao caixa da empresa. Para quem avalia uma franquia de varejo, a pergunta que a fonte não responde é direta: qual será o impacto do split payment sobre o capital de giro mínimo exigido por unidade, e o plano de negócios apresentado pela rede já reflete essa projeção?
Reformas que mexem no timing do caixa raramente exigem mais capital no papel, mas o impacto aparece no dia a dia da operação.