Laudo visitou 744 lojas e 29 centros logísticos, encontrou estoques reduzidos e áreas ociosas, e registrou demissão de 4.647 trabalhadores em agosto.
As vendas digitais da Casas Bahia recuaram 35,3% em valor transacionado entre julho e agosto1, período em que a varejista protocolou pedido de recuperação judicial, e o número de pedidos on-line caiu de 1.068.648 para 706.335 registros, uma retração de 33,9%1. O dado saiu de uma perícia judicial conduzida pela ACFB Administração Judicial, que percorreu 744 lojas e 29 centros de distribuição do grupo1.
O laudo, ao qual O Globo teve acesso, constatou que o grupo segue operando, mas registrou atividade irregular em nove lojas e três centros de distribuição1. Nas unidades abertas ao público, a perícia não encontrou desabastecimento perceptível nos mostruários. Nos centros logísticos, porém, parte das unidades apresentava estoques reduzidos e áreas ociosas, condição que o próprio documento relaciona às dificuldades econômico-financeiras do grupo1. A fábrica da Bartira, marca de móveis da rede, foi classificada como em funcionamento normal1.
Para quem avalia fornecedores ou concorrentes do varejo físico, esse tipo de laudo oferece uma leitura rara. A deterioração operacional tende a andar alguns passos atrás da deterioração financeira nos balanços públicos, e quando aparece em perícia sinaliza que já está avançada. A escassez de estoque nos centros de distribuição pode comprometer prazos de reposição mesmo nas lojas que ainda parecem abastecidas.
No campo de pessoal, o laudo identificou que o quadro da varejista encolheu 4.647 trabalhadores apenas em agosto, sendo 29.737 funcionários no dia 3 e 25.090 no dia 28, queda de 15,6%1. As rescisões somam R$ 126,7 milhões1. O documento ressalva que não é possível atribuir integralmente ao período pós-ajuizamento da recuperação judicial todas as demissões registradas no intervalo, pois não há registro da data de cada dispensa1.
A Casas Bahia entrou com o pedido de recuperação judicial, atribuindo a crise a juros elevados, restrição de crédito e pressão sobre o consumo1. A empresa acumula R$ 17,3 bilhões em dívidas, fechou quase 300 lojas e demitiu 3 mil funcionários antes do protocolo1. No dia 28 de agosto, a juíza da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo antecipou os efeitos da recuperação e concedeu proteção contra credores por 180 dias1.
Para Fábio Percegoni, advogado especialista em Direito Empresarial e sócio do BVZ Advogados, o laudo pode complicar as negociações com credores. Segundo ele, embora a perícia não represente prejuízo processual imediato, a deterioração operacional pode reduzir a capacidade da empresa de oferecer condições favoráveis no plano de recuperação, e isso tende a prolongar o processo1.
Para quem opera ou pretende operar no varejo de eletrodomésticos e móveis, o caso ilustra como a crise de uma rede de grande porte pode alterar rapidamente o ambiente competitivo local, com lojas encerrando atividades e liberando fluxo de clientes sem aviso prévio. O candidato a franqueado em segmentos próximos a esse ticket deve perguntar à franqueadora quais condições ela oferece para reagir a mudanças bruscas na demanda regional, respostas que precisam estar claras antes de qualquer assinatura de contrato.