Juros altos, governança fraca e dependência de crédito derrubaram Casas Bahia e Tok&Stok; franqueados enfrentam os mesmos fatores em suas unidades.
A Casas Bahia oficializou pedido de recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas, após registrar prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 20261. No mesmo movimento, o grupo controlador das Lojas Marabraz protocolou recuperação judicial com débitos de R$ 140,2 milhões, e o Grupo Gennius, dono do Habib's e do Ragazzo, obteve tutela cautelar para suspender execuções de dívidas de R$ 312,41 milhões1. O Grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly, pediu recuperação em maio, citando juros elevados e endividamento das famílias como causas centrais1.
O varejo trabalha com margens estreitas e volumes altos, o que cria dependência permanente de capital de giro2. Uma empresa pode estar abrindo lojas e aumentando receita enquanto constrói, silenciosamente, as condições para uma futura crise2. Essa lógica vale para redes de qualquer porte, inclusive franquias de varejo e de alimentação que operam com estoque pesado ou crediário próprio.
Entre janeiro e abril deste ano, houve 268 pedidos de recuperação judicial, envolvendo 602 empresas, segundo dados compilados pela Serasa Experian. Em 2025, foram apresentados 977 processos, recorde da série histórica1. O movimento não representa uma derrocada generalizada do comércio, mas uma crise aguda concentrada nas companhias que vendem bens duráveis, porque esse modelo depende estruturalmente de crédito farto e prazos longos de parcelamento1.
A Selic saiu de 2% ao ano em agosto de 2020 para 15% em junho do ano passado. De março deste ano até agora, os cortes somaram apenas um ponto percentual, com a taxa atualmente em 14% ao ano1. Ana Paula Tozzi, CEO da consultoria AGR, especializada no varejo, resume o impasse: segundo ela, uma empresa com algum conflito ou fragilidade interna "só fica de pé com a taxa de juros a 5% (ao ano), mas não no patamar atual"1. Para o candidato a franqueado, a pergunta prática é se o modelo de negócio exige que a própria unidade tome crédito para manter estoque, e em que prazo esse custo consta no plano de negócios da rede.
O segundo vetor de risco revelado pelos casos é a governança interna. Na petição inicial da Marabraz, a crise é atribuída a uma disputa familiar que bloqueou o uso de imóveis como garantia para capital de giro1. Marcello Marin, CFO da Spot Finanças e mestre em governança corporativa, afirma que problemas dessa natureza "podem transformar uma crise administrável em uma crise de sobrevivência" quando os sócios deixam de tomar decisões ou passam a disputar o controle1. Thalita Almeida, professora da FGV Direito Rio, aponta que os sinais visíveis desse tipo de conflito são a "perda de talentos" e "a desconfiança e a instabilidade no relacionamento com fornecedores"1.
Governança fraca na franqueadora pode se manifestar para o franqueado antes de qualquer pedido formal, por meio de suporte que some, fornecedores com atrasos recorrentes ou manuais desatualizados. A COF obriga a franqueadora a divulgar sua situação financeira e pendências judiciais, mas não detalha o histórico de conflitos societários nem o modelo de tomada de decisão. Essas informações precisam ser buscadas diretamente na rede e, preferencialmente, em conversa com franqueados já em operação.
A lista de marcas que já passaram por recuperação judicial ou fecharam as portas, Mappin, Mesbla, Americanas, Marisa e Tok&Stok, mostra que escala e reconhecimento de marca não são proteção suficiente2. Redes grandes podem crescer abrindo unidades enquanto acumulam condições para uma crise futura. A saúde financeira da franqueadora é mais reveladora do que o número de lojas na vitrine.