Apenas uma em cada quatro franqueadoras usa inteligência artificial de forma organizada, e a distância entre experimentar e operar estrategicamente importa para o franqueado.
Apenas 26% das franqueadoras brasileiras usam inteligência artificial de maneira estruturada1. A maioria, 59%, ainda está em fase de teste ou adota a ferramenta por iniciativa isolada de equipes, sem direcionamento corporativo1. Esse cenário é o primeiro filtro para quem avalia entrar em uma rede. A diferença entre uma franqueadora que experimenta IA e uma que a integra à operação com metas de retorno tende a aparecer no suporte que o franqueado recebe no dia a dia.
A aplicação mais comum ainda se concentra em atendimento e marketing1. São poucas as redes que avançam para o uso estratégico, que, segundo Carlos Zilli, diretor adjunto de estratégia digital da ABF, envolve educação de toda a equipe, formação de multiplicadores internos e análise de ROI das ações1. Conforme Zilli, a fase de experimentar passou, e 2025 será o ano do retorno mensurável sobre o investimento em IA1.
O horizonte tecnológico vai além do que a maioria das redes já implementou. Cassio Pantaleoni, diretor de IA da Quality Digital, aponta como tendências próximas o comércio baseado em agentes, o chamado agentic commerce, e a infraestrutura B2A, voltada a negociar com agentes de IA1. Ferramentas que soaram inovadoras há poucos anos, como CRM, ERP e canais digitais integrados, já viraram rotina nas marcas mais avançadas1. A pergunta relevante para o candidato, portanto, não é mais se a rede usa tecnologia, mas em que ponto da curva ela está e o que entrega de retorno concreto a quem opera a unidade.
A transformação tecnológica também reconfigurou o papel da loja física. Nas redes mais adaptadas às mudanças de consumo, o ponto de venda pode se tornar um hub logístico para entregas das vendas online da marca, o chamado last mile1. Conforme descreve Marcel Nobre, professor e pesquisador em inovação e inteligência artificial, os canais deixaram de ser estruturas separadas e passaram a funcionar como camadas de uma mesma jornada de compra1. Na prática, isso significa que o franqueado opera hoje em um sistema integrado de venda, relacionamento e entrega, o que pode ampliar o potencial de receita, mas também adiciona complexidade à gestão cotidiana.
Para quem está na fase de due diligence, a orientação é avaliar a infraestrutura digital da rede, a qualidade dos sistemas, o suporte oferecido e o retorno, se possível, em números1. Conforme Pantaleoni, o mais importante para o candidato é entender como esses recursos trazem rentabilidade e eficiência, especialmente na otimização do capex1. A COF traz dados obrigatórios sobre a estrutura da rede, mas o ROI de cada ferramenta tecnológica e o retorno real por praça precisam ser perguntados diretamente à franqueadora, e conversar com franqueados já operando pode revelar se a maturidade digital da marca é real ou apenas promessa de apresentação.
A lacuna entre redes que apenas testam IA e as que a operam com resultados mensuráveis pode ser, hoje, uma das variáveis que mais separam o franqueado bem-sucedido do que ficou para trás.