CEO franqueado lidera expansão via farmácias autônomas, mas adoção de sistemas próprios ainda patina e meta anterior de 500 lojas não se cumpriu.
A Farmais fechou 2025 com mais de R$ 1 bilhão em faturamento e 287 lojas abertas, com meta de encerrar 2026 em 303 pontos ativos e R$ 1,2 bilhão no caixa consolidado1. O marco chega cerca de seis anos depois de um grupo de 34 franqueados adquirir a marca Farmais em leilão judicial, episódio que, segundo o CEO Ricardo Kunimi, confundia a imagem da marca com a da controladora e dificultou a reconstrução da confiança do mercado1.
A própria empresa admite que a expansão foi mais lenta do que o planejado. A meta de 500 lojas em três anos não se concretizou; pandemia e reposicionamento de marca pesaram no ritmo1. Para o candidato a franqueado, essa trajetória sugere que projes de crescimento comunicadas pela rede podem ser revistas, e vale perguntar quais foram as causas de fechamento de unidades no período e qual a taxa atual de sobrevivência das lojas.
A principal alavanca de expansão hoje é a conversão de farmácias independentes. No Brasil, existem cerca de 90 mil farmácias, sendo aproximadamente 50 mil independentes, segundo a Associação Brasileira do Comércio Farmacêutico (ABCFarma)1. Kunimi estima potencial de conversão em 20% desses pontos1. Para quem já opera uma farmácia, o investimento inicial declarado pela rede fica entre R$ 350 mil e R$ 400 mil, valor que cobre adaptações físicas, fachada e adequação de estoque e mix1. Abrir uma unidade do zero demanda aproximadamente R$ 6 mil por metro quadrado, segundo a própria empresa1.
A estratégia de conversão tende a reduzir o custo de expansão para a rede, já que o ponto comercial e a estrutura física existem. O risco, reconhecido pelo próprio CEO, é cultural. Empreendedores acostumados a operar de forma autônoma precisam adotar sistemas de gestão e tecnologia que podem ser novidade, especialmente para quem tem mais tempo de mercado1. A rede desenvolveu ferramentas próprias: o Farmais Pro (inteligência de dados sobre estoque, preços e vendas) e o Farmais PED (centralização de pedidos), e afirma que 95% das lojas já têm acesso, embora nem todas as utilizem de forma recorrente1. Adoção parcial de sistema declarado como estratégico pode indicar gargalo de treinamento ou resistência operacional.
No campo digital, a rede integra marketplaces como iFood e 99Compras, canal que ainda representa menos de 5% do faturamento das lojas, com meta de dobrar a participação até o fim do ano1. Para o candidato, vale entender se esse desempenho é uniforme entre praças ou concentrado em determinadas regiões.
A governança também merece leitura cuidadosa. Dos 34 franqueados que assumiram o controle em 2021, hoje restam 25 acionistas no board; os demais venderam suas participações, embora muitos sigam na rede como franqueados1. O CEO acumula os papéis de executivo e franqueado com quatro unidades próprias, e o maior multifranqueado da rede opera 30 lojas1. Essa estrutura pode favorecer o alinhamento de interesses, mas é ao candidato que cabe perguntar como se dão as decisões em situações de conflito entre os dois papéis.
A COF da Farmais traz royalties, taxa de franquia, taxa de propaganda, prazo contratual e exclusividade territorial, itens obrigatórios pela Lei 13.966. O que não consta, e que deve ser solicitado diretamente à rede, é o payback real por praça, o ROI médio por unidade e a rentabilidade comparada entre lojas convertidas e abertas do zero. Marca com histórico de reversão não é garantia de crescimento no prazo prometido.