O programa compra carteiras inadimplidas em leilão e repassa o desconto integral ao devedor, mas só começa a liberar recursos em fevereiro de 2027.
O Desenrola 3.0, anunciado pelo governo Lula, tem a ambição de eliminar até R$ 150 bilhões em dívidas de famílias brasileiras1. A mudança estrutural em relação às versões anteriores é a compra direta pelo Estado das carteiras inadimplidas em leilão, nas edições 1.0 e 2.0, o governo apenas facilitava as renegociações sem adquirir as dívidas.
O recorte é preciso: dívidas bancárias e não bancárias de até R$ 10 mil por operação, inadimplidas entre dois e quatro anos e meio, contados de 25 de setembro de 20261. O primeiro lote, com processo previsto para novembro, contemplará cartão de crédito rotativo, parcelado e crédito pessoal sem consignação. Lotes seguintes poderão incluir débitos de varejo e serviços como água e luz.
Das dívidas atrasadas há mais de dois anos, o estoque chega a R$ 300 bilhões1. Com o filtro de valor por operação e prazo de inadimplência, o montante elegível cai para cerca de R$ 150 bilhões. O governo estima que R$ 15 bilhões seriam suficientes para quitar a totalidade dessas dívidas elegíveis, mas reconhece que a adesão será parcial. A projeção é de que R$ 75 bilhões sejam efetivamente renegociados, beneficiando até 15 milhões de pessoas1.
O mecanismo dos leilões prioriza o maior desconto ofertado pelo credor, que deve entregar a totalidade dos créditos elegíveis de cada devedor, sem seleção parcial1. O deságio obtido pela União é repassado integralmente ao devedor, que pode quitar a dívida à vista ou parcelar o saldo restante em condições a serem definidas pelo Conselho Monetário Nacional. A operação poderá envolver Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, inclusive via FIDCs com participação da União como cotista1.
Para quem avalia abrir uma franquia, o dado mais relevante é que cerca de 55% do estoque de dívidas negativadas corresponde a débitos não bancários, como água, luz, telefonia e varejo1, segmentos que entrarão nos lotes seguintes do programa. Isso significa que parte expressiva do público-alvo de redes de varejo e serviços pode estar com o nome comprometido hoje. Um programa desse porte pode ampliar, ao longo de 2027 e 2028, a base de consumidores aptos a comprar a prazo, o que favoreceria o caixa de unidades franqueadas nesses segmentos.
Há, porém, um sinal de cautela que a própria fonte traz. No Desenrola 2.0, cerca de 30% das operações renegociadas por novo parcelamento já acumulavam parcelas em aberto em setembro [via PEGN · O Globo]. A renegociação não garante, por si só, a recuperação do poder de compra; o candidato a franqueado em segmentos de ticket médio mais alto pode sentir eventual melhora de forma mais lenta.
O cronograma prevê publicação da Medida Provisória em setembro de 2026 e início do repasse de deságio apenas em fevereiro de 20271. Quem compra franquia agora precisará atravessar esse intervalo antes de colher qualquer efeito. Perguntas a levar à franqueadora incluem o perfil de inadimplência dos clientes da rede na praça-alvo e o grau de dependência do modelo de negócio à concessão de crédito ao consumidor, informações que a COF não formata, devendo ser solicitadas diretamente à rede.
O Desenrola 3.0 abre uma janela relevante para o consumo, mas o passo entre a quitação de uma dívida antiga e o aumento de vendas em uma franquia depende de variáveis que a fonte não demonstra.