Patrimônio líquido negativo de R$ 8,3 bi e fracasso em captar recursos levam varejista a avaliar reestruturação menos de 24 meses após extrajudicial.
Um prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre de 2026, 18 vezes maior que os R$ 555 milhões negativos registrados no mesmo período de 20251, colocou a Casas Bahia diante de uma escolha que até pouco tempo parecia improvável. A empresa avalia entrar em recuperação judicial menos de dois anos após concluir uma recuperação extrajudicial2.
O resultado foi fortemente distorcido por eventos não recorrentes, como baixas de ativos, gastos com reestruturação, contratos não performados e IR diferido, que somaram R$ 9,1 bilhões1. Em termos ajustados, o prejuízo foi de R$ 978 milhões no trimestre, 76% acima do apurado um ano antes1. O Ebitda ajustado recuou para R$ 518 milhões, queda de 9,4%, mesmo com a receita líquida crescendo 1,6%, para R$ 6,97 bilhões1. A receita subindo enquanto rentabilidade cai aponta que a operação consome mais do que gera, independentemente do volume de vendas.
No balanço de 30 de junho, o passivo circulante superava o ativo circulante em R$ 7,837 bilhões e o patrimônio líquido estava negativo em R$ 8,270 bilhões2. A tentativa de captar recursos com investidores internacionais não se concluiu após a desistência do investidor-âncora, e alternativas de liquidez por meio de empréstimos-ponte também não se viabilizaram2. Esse histórico de captações frustradas pode pesar nas negociações futuras com credores e parceiros.
A empresa atribui parte do aperto ao ambiente macroeconômico: juros elevados, consumo das famílias pressionado e a disputa pelo orçamento doméstico com as apostas on-line (bets)3. O resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 1,278 bilhão no segundo trimestre, ante R$ 1,147 bilhão no mesmo período de 20251. Redes que operam com forte alavancagem e crédito ao consumidor ficam especialmente expostas quando os juros sobem e o tomador de baixa renda reduz o consumo.
A resposta operacional foi drástica. Entre quinta-feira, 13, e sexta-feira, 14 de agosto, a companhia fechou 298 lojas, o equivalente a 28,7% das pouco mais de mil unidades que operava4. Para contextualizar o tamanho do corte, nos 12 meses até março de 2026 a rede havia fechado apenas 26 unidades3. Cerca de 1,9 mil funcionários foram demitidos nas duas rodadas, cifra que representa aproximadamente 6,7% da força de trabalho da companhia, e uma fonte ouvida pelo Valor Econômico estima que o corte total possa chegar a 3 mil pessoas3.
O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região (Secor) afirma que o fechamento das unidades da região ocorreu de forma repentina, sem informações prévias aos funcionários, e orienta os trabalhadores a não assinar documentos sem orientação jurídica3. Funcionários relatam que ainda aguardam informações sobre rescisórias, FGTS e seguro-desemprego3. O modo como uma rede conduz o encerramento de unidades próprias pode antecipar como trata o encerramento de contratos de franquia.
No mercado de capitais, as ações BHIA3 chegaram a R$ 0,64 em 14 de agosto, acumulando queda de cerca de 80% em 20263. Em 14 de julho o papel era negociado a R$ 1,08, recuo de aproximadamente 41% em apenas um mês, e o valor de mercado da varejista estava em cerca de R$ 660 milhões3.
Em 2024, a Casas Bahia renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas por meio de recuperação extrajudicial, com plano homologado pela Justiça em junho daquele ano2. No ano seguinte, converteu antecipadamente R$ 1,56 bilhão em títulos da segunda série e reperfilou outros R$ 1,67 bilhão da primeira série3. Ainda assim, o ciclo se repetiu em escala muito maior. Para quem avalia qualquer rede varejista como potencial franqueadora, a pergunta permanece aberta: qual é a situação financeira consolidada da operadora e como ela afeta o suporte ao franqueado?