Queda surpreendeu analistas; móveis e eletrodomésticos caíram 4,9%, acendendo alerta para franquias do segmento em ambiente de Selic alta.
O varejo brasileiro recuou 0,8% em julho na comparação com junho1, número que ficou abaixo até mesmo da projeção mais pessimista dos analistas consultados pelo jornal Valor, que estimavam recuo de apenas 0,1%1. Para quem avalia uma franquia cujo modelo de venda depende de crédito ao consumidor, esse descompasso entre expectativa e resultado é o dado mais importante da divulgação.
O segmento de móveis e eletrodomésticos registrou a maior queda entre os oito grupos pesquisados, com recuo de 4,9% na passagem de junho para julho1. Esse é justamente o setor que costuma depender de parcelamento para fechar vendas, e a Selic permanece em 14% ao ano1. Redes de varejo que operam nessa categoria tendem a sentir a pressão de forma mais imediata, já que o tíquete médio raramente é pago à vista pelo consumidor final.
A queda de 0,2% em hiper e supermercados também chamou atenção porque ocorreu em um mês com deflação nos preços de alimentos no IPCA1. Segundo o economista Matheus Pizzani, do PicPay, os dados sugerem perda de fôlego do consumo das famílias, atribuída ao patamar restritivo dos juros, ao crescimento do endividamento e ao menor nível de renda disponível1. Quando até um cenário de alimentos mais baratos não sustenta as vendas do principal segmento do varejo, a restrição parece vir do lado da renda e do crédito, não dos preços.
No varejo ampliado, que inclui veículos, material de construção e atacado de bebidas e alimentos, houve alta de 0,4% sobre junho1. A comparação anual, porém, também perdeu força, com crescimento de 1,8% ante julho do ano passado, contra 4,9% registrados em junho na mesma base1. Franquias de material de construção ou de atacarejo podem estar em terreno ligeiramente menos hostil neste momento, mas a tendência de desaceleração anual vale como alerta para qualquer rede do varejo físico.
O quadro de juros tem perspectiva de mudança, ainda que gradual. Analistas esperavam corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião do Copom que se encerrava na quarta-feira, levando a taxa para 13,75% ao ano1. Eliminada a frase inteira.1. Qualquer que seja o ritmo, cortes graduais tendem a aliviar o custo do financiamento ao longo do tempo, mas sem data certa para se traduzir em crescimento de vendas nas unidades.
Para o candidato a franqueado que avalia redes sensíveis ao crédito, a pergunta que a fonte não responde é direta: qual é o histórico de faturamento por unidade nos últimos dois anos, período em que os juros permaneceram restritivos? Payback real por praça e ROI por unidade precisam ser pedidos explicitamente à franqueadora. Entender como a rede performou num ciclo de juro alto é a melhor forma de calibrar o que esperar quando ele eventualmente ceder.