Saúde e beleza lideram o franchising com R$ 74,3 bi em 2025 — mas GLP-1 e IA já mudam quem vai crescer dentro desse número.
O segmento de Saúde, Beleza e Bem-Estar faturou R$ 74,3 bi em 2025 — crescimento de 14,6% sobre o ano anterior e o maior do franchising brasileiro1. O número responde à pergunta sobre se o setor cresce. Mas não responde à que importa para quem está avaliando assinar um contrato agora: a rede candidata já está posicionada para os dois vetores que estão redesenhando esse mercado, ou opera com um modelo que pode encolher antes do contrato vencer? Os dois vetores têm nomes concretos. O primeiro são os agonistas GLP-1 — as canetas emagrecedoras que ganharam escala nos últimos dois anos e alteraram o perfil de demanda por serviços de estética, nutrição e emagrecimento. O segundo é a IA aplicada a diagnóstico, personalização de protocolos e automação de backoffice. Ambos foram sinalizados no ABF Summit como forças que as redes de saúde tendem a não poder ignorar2. O problema é que eles não aparecem nos dados históricos de faturamento, o crescimento robusto do segmento em 2025 é real, mas reflete decisões tomadas antes da disseminação em escala desses dois fatores.
O efeito GLP-1 é o mais direto. Clientes que usam semaglutida ou tirzepatida perdem peso com menos intervenção estética — o que não elimina a demanda por serviços de saúde e beleza, mas desloca o mix. Protocolos de redução de medidas cedem espaço a serviços de retensão de massa muscular, cuidados com a pele associados à perda rápida de peso e suporte nutricional especializado. Redes cujo cardápio de serviços foi desenhado para o cliente pré-GLP-1 enfrentam uma descontinuidade de portfólio que não aparece no contrato, mas aparece no caixa da unidade. O impacto não é hipotético. Nos Estados Unidos, redes de clínicas de emagrecimento já relataram queda na demanda por procedimentos tradicionais à medida que a penetração dos GLP-1 cresceu2. O Brasil segue uma curva de adoção defasada, mas a direção é a mesma. Para o franqueado que assina hoje um contrato de cinco anos, a pergunta concreta é: o protocolo que eu vou operar foi revisado para esse novo perfil de cliente, ou é o mesmo de 2021?
A IA entra por um caminho diferente, mas igualmente estrutural. No ABF Summit, as discussões apontaram para três frentes: diagnóstico assistido por IA (anamnese, análise de pele, recomendação de protocolos), personalização de jornada do cliente e automação de operações de backoffice — agendamento, retenção, precificação dinâmica2. Redes que já integraram essas ferramentas ao sistema tendem a reduzir custo operacional e aumentar a taxa de retorno do cliente. Redes que ainda não o fizeram podem estar em desvantagem operacional em comparação com as que já implementaram. A combinação dos dois vetores cria uma bifurcação dentro do próprio segmento. O faturamento agregado de R$ 74,3 bi1 vai continuar crescendo — a projeção do setor como um todo é de +8% a +10% para 20263. Mas dentro desse crescimento, a diferença de trajetória entre redes adaptadas e não-adaptadas tende a se ampliar. O dado agregado não enxerga essa bifurcação.
Há uma tensão que o crescimento do segmento tende a encobrir. Os 2,6 milhões de CNPJs do setor de saúde e beleza distribuídos por 5.570 municípios4 falam da capilaridade da demanda, não da oferta de redes adaptadas. A saturação varia muito por praça — e o Índice MF de Oportunidade Regional aponta que as praças com maior atratividade para novas unidades em 2026 estão, em sua maioria, fora das capitais: Itatiba/SP lidera com score 73/100 (espaço de mercado 48, renda 93, desenvolvimento 81, contratação 97), seguida de Santa Bárbara d'Oeste/SP com 72/100 (espaço 49, renda 77, desenvolvimento 90, contratação 98) e Concórdia/SC com 71/100 (espaço 47, renda 92, desenvolvimento 91, contratação 70)5. São praças com renda e nível de desenvolvimento elevados e ainda com espaço para novas operações, mas a oportunidade geográfica só se converte em retorno se o modelo que chega já estiver calibrado para o novo perfil de demanda.
O contraponto estrutural é este: o crescimento de 14,6% do segmento em 2025 foi real e amplo o suficiente para beneficiar redes em estágios bem diferentes de adaptação. O crescimento de demanda por serviços de saúde e bem-estar nos últimos anos foi grande o bastante para beneficiar modelos em diferentes estágios de atualização. A dúvida, legítima, é se esse colchão de crescimento vai continuar existindo na mesma magnitude enquanto GLP-1 e IA redefinem o que o cliente quer e o que uma unidade eficiente precisa entregar. Redes que crescem porque o mercado cresce e redes que crescem porque o modelo é competitivo têm trajetórias parecidas no histórico, mas divergentes quando o ambiente muda. Para quem avalia uma franquia de saúde e beleza agora, o histórico de faturamento do segmento é contexto — não argumento. O argumento que falta é saber se a rede já revisou o portfólio de serviços para o cliente GLP-1, se a IA está no sistema ou na lista de promessas, e como o franqueador se compromete a atualizar o modelo durante a vigência do contrato. Essas respostas não estão no número de unidades nem na curva de crescimento, estão na COF e, principalmente, na conversa com franqueados que já operam o modelo hoje.