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Análise · Mercado Franquia

Franchising fatura mais, mas a média encobre um setor desigual

Franchising fechou 2025 com R$ 301,7 bi e +10,5% — mas a confiança do empresário recua há três meses e 81,6% das famílias estão endividadas.

Redação Mercado Franquia·29 de jun. de 2026 · 13:27·4 min de leitura·Redação MF · com IA
Franchising fatura mais, mas a média encobre um setor desigual

O faturamento do franchising brasileiro chegou a R$ 301,7 bilhões em 2025, alta de 10,5% sobre o ano anterior1. O número aparece em toda apresentação de rede que busca novos franqueados — e, isolado, é genuinamente forte. O problema é que ele convive com três sinais de deterioração que apontam na direção oposta: a confiança do empresário do comércio (ICEC) vem recuando2, a intenção de consumo das famílias (ICF) também vem caindo2, e o percentual de famílias endividadas (PEIC) chegou a 81,6% em maio2. A contradição não é acidental. Ela reflete uma estrutura em que o agregado do setor cresce, mas os dois públicos que sustentam cada unidade individual, o consumidor e o próprio empresário-franqueado, estão pressionados.

Para quem avalia comprar uma franquia agora, a questão central muda de ângulo: não é se o setor cresce, mas se a unidade que está sendo analisada pertence ao segmento que cresce acima da média — ou ao que está sendo puxado pela média de um mercado desigual. O faturamento agregado de R$ 301,7 bi é a soma de realidades muito diferentes.

  1. Saúde, Beleza e Bem Estar74,3
  2. Alimentação Food Service51,8
  3. Serviços e Outros Negócios40,5
  4. Moda30,8
  5. Alimentação Comercialização28
  6. Casa e Construção21,2
  7. Educação16,4
  8. Hotelaria e Turismo14,2
Fonte · ABF · 2025

O segmento de Saúde, Beleza e Bem Estar sozinho faturou R$ 74,3 bilhões — crescimento de 14,6%1. Alimentação Food Service somou R$ 51,8 bilhões (+10,8%)1. Esses dois segmentos puxam a média para cima. No outro extremo, Educação cresceu 5,7%1, bem abaixo do consolidado. O ponto não é que Educação vai mal em termos absolutos; é que a diferença entre o melhor e o pior segmento é de onze pontos percentuais dentro do mesmo número que o discurso de oportunidade usa como âncora única.

É nesse ambiente que o ICEC, índice que mede a confiança do empresário do comércio, vem recuando2. A leitura direta não é possível: o ICEC mede percepção, não faturamento de franquias. Mas o movimento é relevante porque o franqueado é, antes de tudo, um empresário do varejo ou dos serviços. Quando a confiança desse perfil recua de forma consistente, há um sinal de que o ambiente operacional está pesando — seja no custo de crédito, na dificuldade de contratação ou na leitura sobre a demanda futura. Ao mesmo tempo, 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas2, e a intenção de consumo das famílias (ICF) vem caindo2. O consumidor que compra o produto ou serviço da unidade franqueada está, em média, mais apertado. Esse aperto não se distribui igualmente entre segmentos: categorias de necessidade básica ou ticket mais baixo tendem a ser menos sensíveis que itens de gasto mais discricionário.

Faturamento do setor
R$ 301,7 bi
+10,5% em 2025 [ABF · 2025]
Redes ativas
3.297
estável vs. 2024 [ABF · 2025]
Unidades em operação
202.444
+2,4% em 2025 [ABF · 2025]
Famílias endividadas (PEIC)
81,6%
maio/2026 — 3º mês de alta [CNC · 2026-05]
Fonte: ABF · 2025

Há um dado que complica o argumento otimista de outro ângulo: o número de redes ativas ficou estável em 3.2971 — variação zero em relação a 2024. O faturamento cresceu 10,5%, mas a base de marcas não se expandiu. Isso significa que o crescimento veio do interior das redes existentes, mais vendas por unidade, mais unidades por rede, ou ambos. O que a leitura agregada não revela é se esse crescimento foi distribuído de forma uniforme entre as 3.297 redes ou concentrado nas maiores. Sem dado de distribuição, a concentração é hipótese, mas é a hipótese que o candidato a franqueado deveria testar antes de assinar.

A ABF projeta crescimento do faturamento de 8% a 10% para 20263 e expansão do número de redes de 2% a 4%3. Se confirmadas, as projeções sustentam o argumento de que o setor tem trajetória positiva. O contraponto é que projeções setoriais são médias — e a dispersão entre segmentos sugere que parte relevante desse crescimento pode se concentrar nos mesmos líderes de 2025. Segmentos como Limpeza e Conservação (+16,8%1) e Saúde/Beleza (+14,6%1) entram em 2026 com momentum diferente de Educação (+5,7%1). Ambos podem crescer; o ritmo tende a ser diferente.

O faturamento de R$ 301,7 bilhões é real. O crescimento de 10,5% é real. O risco para o investidor está em usar o número setorial como proxy do desempenho da unidade que está avaliando. A pergunta que muda a decisão não é 'o franchising cresceu?', mas 'qual foi o crescimento do segmento desta rede, e qual o histórico de desempenho das unidades existentes dela?' A COF traz o rol de franqueados ativos e os desligamentos dos últimos 24 meses — é o ponto de partida para testar se o crescimento da rede acompanhou o do segmento, ou se ela apenas surfou na média de um mercado que cresceu desigualmente.

Fontes

Associação Brasileira de Franchising1202532026
Confederação Nacional do Comércio2maio/2026

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