90 marcas estrearam na ABF Expo 2026 — nichos reais, histórico de unidades ainda insuficiente para decidir.
O setor de franquias brasileiro registrou R$ 301,7 bilhões em faturamento em 2025, alta de 10,5% sobre o ano anterior1. No mesmo período, o número de redes ficou estável em 3.2971. Essa combinação, mais dinheiro, mesma quantidade de marcas, é o pano de fundo perfeito para o que aconteceu na ABF Franchising Expo 2026: 90 marcas estrearam na maior feira de franquias do mundo, entre elas redes voltadas à saúde da 3ª idade e à estética íntima2. Para quem avalia comprar uma franquia, a questão não é se esses mercados existem. É se as redes que os representam já têm estrutura suficiente para justificar o investimento.
A demanda nesses dois nichos é consolidada. O envelhecimento acelerado da população brasileira cria uma base crescente de consumidores que demandam serviços de saúde preventiva, reabilitação, mobilidade e bem-estar voltados à longevidade — um mercado que extrapola clínicas tradicionais e migra para formatos de atendimento recorrente e próximo de casa. A estética íntima, por sua vez, consolidou demanda no período pós-pandemia, impulsionada por mudança de comportamento e maior abertura para serviços antes considerados tabu. Esses são mercados reais, não modismos de vitrine.
O problema não é o mercado. É o histórico — ou a falta dele. Quando uma rede estreia numa feira de franquias, ela sinaliza intenção de expansão, não maturidade operacional. A COF (Circular de Oferta de Franquia), documento obrigatório que a franqueadora entrega ao candidato, apresenta o histórico de unidades abertas, encerradas e transferidas. Para uma rede com poucas unidades e pouco tempo de operação, esse histórico é curto demais para revelar o padrão de maturação, em quanto tempo a unidade atinge o ponto de equilíbrio, qual a taxa de encerramento, como se comporta o faturamento da unidade madura. Estrear na Expo não preenche essa lacuna.
A capilaridade do segmento de saúde, beleza e bem-estar como um todo dá a dimensão do espaço endereçável: são 2.629.760 CNPJs registrados em 5.570 municípios brasileiros3. Esse número mede presença e capilaridade da demanda, a maioria são negócios independentes, não franquias, mas indica que o consumidor desses serviços está distribuído por todo o país, inclusive em praças menores. É exatamente esse dado que embasa o argumento de quem defende os nichos emergentes: há demanda em municípios onde a oferta formal ainda é escassa. A ABF projeta crescimento de 2% a 4% no número de redes em 20264, o que sugere que novas marcas continuarão chegando ao mercado — e que entrar cedo pode significar capturar posição antes da concorrência.
O Índice MF de Oportunidade Regional aponta as praças com maior equilíbrio entre espaço de mercado, renda, desenvolvimento e capacidade de contratação para o segmento de saúde, beleza e bem-estar5. Itatiba/SP lidera com score 73/100 — com percentil de contratação em 97 e renda em 93, dois fatores críticos para uma operação que depende de mão de obra especializada e ticket médio sustentável. Santa Bárbara d'Oeste/SP aparece em seguida com 72/100 (desenvolvimento em 90, contratação em 98) e Concórdia/SC com 71/100 (renda em 92, desenvolvimento em 91). O que chama atenção nessas três praças é a combinação: desenvolvimento humano alto, o que costuma andar junto com maior aceitação de serviços de saúde preventiva e estética, e espaço de mercado ainda não saturado. Para redes nascentes nesses nichos, cidades médias com esse perfil podem ser mais estratégicas do que as capitais já disputadas.
O contraponto merece atenção antes de qualquer entusiasmo. Saúde da 3ª idade envolve regulação sanitária, profissionais habilitados e protocolos clínicos que elevam o custo de operação — e que nem toda COF nascente detalha com profundidade suficiente para o candidato entender o que está comprando. Estética íntima carrega barreiras culturais em praças mais conservadoras, o que pode comprimir o mercado real bem abaixo do endereçável teórico. Além disso, quanto menor o histórico de unidades da rede, menor a capacidade da COF de informar o que de fato importa: taxa de encerramento, tempo médio para o ponto de equilíbrio, variação de faturamento entre unidades em diferentes praças. Esses dados costumam constar na COF e nos documentos complementares da rede. Quando são escassos, é porque o histórico ainda não existe. E histórico escasso é o risco principal, não o segmento.
A projeção de crescimento de 8% a 10% no faturamento do franchising em 20264 não está distribuída igualmente entre todos os modelos. Parte relevante tende a ser capturada por redes já maduras, com histórico de expansão e operações validadas em múltiplas praças. Para quem considera entrar num nicho emergente estreado na ABF Expo, a pergunta decisiva não é 'esse mercado vai crescer?' — ele provavelmente vai. A pergunta é: esta rede específica já tem unidades abertas há tempo suficiente para mostrar como se comporta depois do período de ramp-up? Se a resposta for 'ainda não', o candidato não está comprando uma franquia madura, está financiando a validação do modelo. Isso pode ser uma aposta legítima, mas precisa ser feita com os olhos abertos, e com uma pergunta direta à franqueadora: quantas unidades estão em operação há mais de dois anos e qual a taxa de encerramento acumulada desde o lançamento da rede?