Com 81,6% das famílias endividadas e Selic em 14,5% a.a., a expansão do franchising em 2026 pode favorecer quem já tem capital próprio.
O franchising brasileiro projeta crescimento de faturamento entre 8% e 10% em 2026 [ABF · 2026]. Ao mesmo tempo, 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas — o maior patamar registrado pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor desde o início da série recente [PEIC/CNC · 2026-05]. Essa combinação coloca o candidato a franqueado diante de uma pergunta que vai além do potencial do segmento: o financiamento de entrada cabe no fluxo de caixa que a unidade vai gerar? A tensão não é retórica. A Selic permanece em 14,5% a.a. [BCB · 2026-06], após ciclo de alta que começou no segundo semestre de 2024 e se prolongou até o início de 2026. Crédito para pessoa física e para microempresas reflete esse patamar. Quem precisa financiar a taxa de franquia ou o capital de giro inicial contrata dívida num dos momentos de custo mais elevado dos últimos anos — enquanto a renda familiar já está comprometida em quase 50% com dívidas [endividamento das famílias: 49,82% da renda, BCB · 2026-03].
Para quem avalia entrar no franchising, o custo de oportunidade também pesa. Com a Selic em 14,5% a.a., a renda fixa oferece retorno real positivo. A questão que o dado levanta não é se a franquia rende mais do que o Tesouro, esse número não existe por unidade nos dados disponíveis, mas se o fluxo de caixa projetado da operação cobre o serviço da dívida e ainda remunera o risco operacional de forma satisfatória. Esse cálculo, que a Circular de Oferta de Franquia e o histórico financeiro da rede podem alimentar, é onde a decisão efetivamente acontece.
O setor, por sua vez, segue com fundamentos sólidos. O faturamento chegou a R$ 301,7 bilhões em 2025, alta de 10,5% sobre o ano anterior [ABF · 2025]. São 202.444 unidades em operação e 3.297 redes ativas [ABF · 2025]. A projeção de crescimento do número de redes é de 2% a 4% para 2026 [ABF · 2026] — o que significa que parte do ecossistema continuará se expandindo, independentemente do cenário de crédito. Isso aponta para um movimento seletivo: quem já tem capital próprio disponível opera num ambiente com demanda consistente e estrutura de rede madura. A barreira que o crédito caro impõe é real, mas não é universal. Redes de menor investimento inicial, modelos home-based ou com estrutura enxuta têm perfil de entrada diferente de operações que exigem ponto comercial, reforma e estoque. A pergunta relevante não é 'o franchising cresce?' os dados confirmam que sim, mas 'em qual faixa de investimento esse crescimento está concentrado?' Essa resposta não está nos agregados da ABF: ela está no histórico de abertura de cada rede.
Há um outro lado da conta que merece atenção. A Intenção de Consumo das Famílias segue acima de 100 [ICF/CNC: 104,1 · 2026-05], sinalizando que, apesar do endividamento, a disposição de consumir permanece positiva. Para o franqueado que já está operando, esse sinal é relevante. Para quem está avaliando entrar, ele informa o ambiente de demanda que a unidade vai encontrar — não o ritmo de retorno sobre o investimento, que depende do modelo específico da rede. Do lado do empresário do comércio, a Confiança do Empresário do Comércio recuou para 98,9 [ICEC/CNC · 2026-05], terceira leitura consecutiva abaixo de 100 — o limiar que separa otimismo de pessimismo nesse indicador. O sinal sugere que os empresários do varejo estão mais cautelosos, o que pode sinalizar pressão do custo financeiro sobre as margens operacionais.
A decisão de entrar agora depende, portanto, de duas perguntas que os dados macroeconômicos não respondem sozinhos. Primeira: qual é o investimento total necessário, taxa de franquia, capital de giro, obras e equipamentos, e qual parcela pode ser coberta sem crédito caro? Segunda: o histórico de maturação da rede indica em quanto tempo uma unidade típica atinge o ponto de equilíbrio? A COF e os documentos complementares da rede costumam indicar parte desse histórico. É a leitura desses números, não do IPCA nem da Selic isoladamente, que define se a janela está aberta para um perfil específico de investidor. O franchising vai crescer em 2026. A questão é quem tem condições de crescer junto com ele. --- **Fontes:** Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, PEIC [CNC · mai/2026]; Banco Central do Brasil, Selic e Endividamento das Famílias [BCB · jun/2026 e mar/2026]; Associação Brasileira de Franchising, Desempenho do Setor 2025 e Projeções 2026 [ABF · 2025/2026]; Intenção de Consumo das Famílias, ICF [CNC · mai/2026]; Índice de Confiança do Empresário do Comércio — ICEC [CNC · mai/2026].